Margarida,
flor da minha essência, labareda em minha carne, a minha alma é sua! Nasci
certa feita em Paris, em 03 de janeiro de 1910, numa salada de genes raciais:
minha mãe, cidadão suíça, descendente de franceses e austríacos, com uma
cachimbada de Danúbio nas veias. Meu pai, negociante de vinhos, jóias e sedas,
nasceu também em Paris, também em janeiro, no ano de 1880. Quando nasci, apesar
de todas as vantagens, nossa família teve um acentuado prejuízo econômico. O
Rio Sena, aparentemente calmo e controlado, foi o responsável por inundação nas suas margens, tornando a cidade vulnerável
á subida de suas águas. Naquele inverno de 1910, Paris ficou parcialmente
submersa, deixando pairar a dúvida em nossa gente se iria eventualmente afundar
(lembro-me dos barquinhos de papel), estando ainda presentes em nossas memórias
as imagens desse acontecimento. Em 1910, Paris era o centro da vida cultural e
intelectual da França, para não dizer de toda a Europa. A Cidade das Luzes usufruía
de eletricidade, radiofone, novos túneis do metrô e saneamento, tornando a vida
mais apropriada e confortável. O nível de certeza no seu regulamento de urbe adiantada
e competente fez com que fossem desconhecidos os diversos sinais e advertência
de que estava eminente a ascensão das águas do Rio Sena. Após o verão seco de
1909, seguiu-se um inverno rigoroso, que se diferenciou por meses de chuva
torrencial e infindável. Entre os dias 21 e 28 de janeiro estas aguaceiras
culminaram com uma elevação das águas do Sena de cerca de 8 metros. Eu estava
lá. Vivi em Paris até os dez anos. Minha mãe teve quatro filhos, sendo eu o
caçula de três irmãs: Valentine, Mireille e Cécile. Nossa famíla mudou-se para
a cidade de Lens, região mais pobre da França. Em Lens estudamos e acabamos de
crescer. Aos dezoito anos morri em um acidente de trem, eu, Valentine e meu pai.
Muito certo hoje eu sei era o imenso amor que o velho Frachesco nutria ´por
Valentine. Meu pai amava a filha na como se devem amar pai e filha, e Valentine
também, desde mocinha, não saía de perto dele, e sempre que podia sentava em seu colo, agarrava seu pescoço,
penteando com a língua o seu bigode. Valentine amava o pai como não se devem
amar filha e pai. Nas viagens de trem a Paris, nas que fui poucas vezes com
eles, em uma delas ouvi Valentine falar baixinho com o Sr. Frachesco: “Mamãe ia
ficar uma fera se descobrisse que nós somos amantes, não ía?", no que papai, com os olhos de bode, retrucou, em baixo tom: C' est bien tout?". Não. Isso não é tudo. Nada está bem. Restam mais pincelas.
(continua)
Acreis, 18/01/2013, Sta Cruz
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