sábado, 19 de janeiro de 2013

Escuridão da Noite - IV

Margarida, flor da minha essência, labareda em minha carne, a minha alma é sua! Nasci certa feita em Paris, em 03 de janeiro de 1910, numa salada de genes raciais: minha mãe, cidadão suíça, descendente de franceses e austríacos, com uma cachimbada de Danúbio nas veias. Meu pai, negociante de vinhos, jóias e sedas, nasceu também em Paris, também em janeiro, no ano de 1880. Quando nasci, apesar de todas as vantagens, nossa família teve um acentuado prejuízo econômico. O Rio Sena, aparentemente calmo e controlado, foi o responsável por inundação  nas suas margens, tornando a cidade vulnerável á subida de suas águas. Naquele inverno de 1910, Paris ficou parcialmente submersa, deixando pairar a dúvida em nossa gente se iria eventualmente afundar (lembro-me dos barquinhos de papel), estando ainda presentes em nossas memórias as imagens desse acontecimento. Em 1910, Paris era o centro da vida cultural e intelectual da França, para não dizer de toda a Europa. A Cidade das Luzes usufruía de eletricidade, radiofone, novos túneis do metrô e saneamento, tornando a vida mais apropriada e confortável. O nível de certeza no seu regulamento de urbe adiantada e competente fez com que fossem desconhecidos os diversos sinais e advertência de que estava eminente a ascensão das águas do Rio Sena. Após o verão seco de 1909, seguiu-se um inverno rigoroso, que se diferenciou por meses de chuva torrencial e infindável. Entre os dias 21 e 28 de janeiro estas aguaceiras culminaram com uma elevação das águas do Sena de cerca de 8 metros. Eu estava lá. Vivi em Paris até os dez anos. Minha mãe teve quatro filhos, sendo eu o caçula de três irmãs: Valentine, Mireille e Cécile. Nossa famíla mudou-se para a cidade de Lens, região mais pobre da França. Em Lens estudamos e acabamos de crescer. Aos dezoito anos morri em um acidente de trem, eu, Valentine e meu pai. Muito certo hoje eu sei era o imenso amor que o velho Frachesco nutria ´por Valentine. Meu pai amava a filha na como se devem amar pai e filha, e Valentine também, desde mocinha, não saía de perto dele, e sempre que podia  sentava em seu colo, agarrava seu pescoço, penteando com a língua o seu bigode. Valentine amava o pai como não se devem amar filha e pai. Nas viagens de trem a Paris, nas que fui poucas vezes com eles, em uma delas ouvi Valentine falar baixinho com o Sr. Frachesco: “Mamãe ia ficar uma fera se descobrisse que nós somos amantes, não ía?", no que papai, com os olhos de bode, retrucou, em baixo tom: C' est bien tout?". Não. Isso não é tudo. Nada está bem. Restam mais pincelas.

(continua)

Acreis, 18/01/2013, Sta Cruz

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