Esse trecho que vou contar é um pouco da historieta de uma
das minhas existências, que se passa no começo do século 18, quando abrolhei
parido em terras brasileiras (norte-nordeste do país). Nasci em uma linhagem
rica, sendo meu pai um famoso político e dono de muitas estâncias. Eu
nunca pensei em ser endinheirado e
poderoso. Ainda adolescente eu tinha uns
sonhos esquisitos. Sonhava que de tudo eu sabia: matemática, filosofia,
ciências, línguas estrangeiras e mais coisas. Quando acordava ficava lembrando
dos meus sonhos e agia como se realmente eu soubesse de tudo. Minha mãe ficava
assombrada com aquilo. O pior é que faziam questões para mim e eu replicava.
Não sei se certo ou errado. Só sei que já nasci sabendo ler e escrever. Quando
fui para a escola não tinha doutor que me entendesse. Fui diplomado sem nunca
ocupar um assento em sala de aula. Diante daquela situação, minha mãe resolveu
procurar um vigário na cidade, para me rezar. Minha tia falava que era pra me
esconjurar. Chegamos na igreja pela
manhã. Olhei para o pároco e ela me pareceu ser
um tanto insano. A sós comigo, falou que rezaria missa para mim em troca
de ensinar-lhe tudo que eu sabia. Mas o que sabia se apenas sonhava? Percebi
que diante da sua ambição, o padre almejava ser papa, antes de torna-se santo.
Falou-me que eu deveria construir um teto, com inteireza, deferência e amando
os achegados sempre. Dias depois, soube através dos periódicos da cidade que o
clérigo acabou louco e trancafiado. Meus planos então foram aprazados. Conheci
Margarida e ela abrolhou em minha vida, e por ela me cativei
perdidamente. Fazíamos planos matrimonias quando Margarida conheceu outro
rapaz, Luiz Pires, com que logo se matrimoniou, teve filhos e foi habitar em
Sergipe. Senti-me densamente vexado, coração cheio de aversão, rancor,
invocando desforra. Diante de tal amargura, dediquei-me ao sacerdócio,
tornando-me clérigo em quinze anos, indo catequizar em terras sergipanas, a
mando da igreja católica. A estrela, tal qual carta de tarô, colocou-me em
presença de Margarida, voltando o ódio à lembrança, mas sentindo que ainda a
desejava. Tentei conquistá-la, mas não consegui. Margarida resistia bravamente
às assaltadas, porém Luiz Pires não demorou a perceber o meu cerco febril por
sua majestosa e leal companheira. Luiz Pires resolveu mudar-se para a Bahia com
toda a sua família. Eu pensava e queria somente caçar, acusar, difamar, fazer
intrigas, mentir, combater, agoniar e chacinar. Não demorou muito e descobri
onde Luiz Pires estava. Luiz Pires foi aprisionado, denunciado e entregue a
mim, por ordem de seus superiores. Luiz Pires foi levado às grades infectas,
onde passou martirizantes penúrias e tormentos: arranquei-lhe as garras e os colmilhos,
despedacei os seus dedos, destronquei
seus pulsos, incinerei as solas de seus chispes. Margarida muito sofria
em pensar o que estaria acontecendo ao consorte. Foi enfim procurar-me entre
lágrimas, implorando cessação e misericórdia.
Prometi a ela Luiz Pires de volta, desde que a mim se adjudicasse. Foram aversões
que acabaram em anuência. Sem acordo, marido morto. Depois de assombroso pacto,
Margarida vai a Luiz Pires. Contempla-o, desespera-se, e não consegue ocultar
seu horror por mim. Percebo sua repulsa, e eu não consigo apreender aquele altivo
amor que banha o corpo de Luiz Pires com lágrimas. Por não conseguir o amor de
Margarida, termino por cegar Luiz Pires, cavando seus olhos com baganas de
ferro em brasa. Após dois meses à liberdade, Luiz Pires suicida-e para não mais
fazer sofrer sua adorada Margarida.
(continua)
Acreis, 13/01/2013 - Belford Roxo
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