quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Escuridão da Noite - III

Esse trecho que vou contar é um pouco da historieta de uma das minhas existências, que se passa no começo do século 18, quando abrolhei parido em terras brasileiras (norte-nordeste do país). Nasci em uma linhagem rica, sendo meu pai um famoso político e dono de muitas estâncias. Eu nunca  pensei em ser endinheirado e poderoso. Ainda adolescente eu tinha uns  sonhos esquisitos. Sonhava que de tudo eu sabia: matemática, filosofia, ciências, línguas estrangeiras e mais coisas. Quando acordava ficava lembrando dos meus sonhos e agia como se realmente eu soubesse de tudo. Minha mãe ficava assombrada com aquilo. O pior é que faziam questões para mim e eu replicava. Não sei se certo ou errado. Só sei que já nasci sabendo ler e escrever. Quando fui para a escola não tinha doutor que me entendesse. Fui diplomado sem nunca ocupar um assento em sala de aula. Diante daquela situação, minha mãe resolveu procurar um vigário na cidade, para me rezar. Minha tia falava que era pra me esconjurar.  Chegamos na igreja pela manhã. Olhei para o pároco e ela me pareceu ser  um tanto insano. A sós comigo, falou que rezaria missa para mim em troca de ensinar-lhe tudo que eu sabia. Mas o que sabia se apenas sonhava? Percebi que diante da sua ambição, o padre almejava ser papa, antes de torna-se santo. Falou-me que eu deveria construir um teto, com inteireza, deferência e amando os achegados sempre. Dias depois, soube através dos periódicos da cidade que o clérigo acabou louco e trancafiado. Meus planos então foram aprazados. Conheci Margarida e ela abrolhou em minha vida, e por ela me cativei perdidamente. Fazíamos planos matrimonias quando Margarida conheceu outro rapaz, Luiz Pires, com que logo se matrimoniou, teve filhos e foi habitar em Sergipe. Senti-me densamente vexado, coração cheio de aversão, rancor, invocando desforra. Diante de tal amargura, dediquei-me ao sacerdócio, tornando-me clérigo em quinze anos, indo catequizar em terras sergipanas, a mando da igreja católica. A estrela, tal qual carta de tarô, colocou-me em presença de Margarida, voltando o ódio à lembrança, mas sentindo que ainda a desejava. Tentei conquistá-la, mas não consegui. Margarida resistia bravamente às assaltadas, porém Luiz Pires não demorou a perceber o meu cerco febril por sua majestosa e leal companheira. Luiz Pires resolveu mudar-se para a Bahia com toda a sua família. Eu pensava e queria somente caçar, acusar, difamar, fazer intrigas, mentir, combater, agoniar e chacinar. Não demorou muito e descobri onde Luiz Pires estava. Luiz Pires foi aprisionado, denunciado e entregue a mim, por ordem de seus superiores. Luiz Pires foi levado às grades infectas, onde passou martirizantes penúrias e tormentos: arranquei-lhe as garras e os colmilhos, despedacei os seus dedos, destronquei  seus pulsos, incinerei as solas de seus chispes. Margarida muito sofria em pensar o que estaria acontecendo ao consorte. Foi enfim procurar-me entre lágrimas, implorando  cessação e misericórdia. Prometi a ela Luiz Pires de volta, desde que a mim se adjudicasse. Foram aversões que acabaram em anuência. Sem acordo, marido morto. Depois de assombroso pacto, Margarida vai a Luiz Pires. Contempla-o, desespera-se, e não consegue ocultar seu horror por mim. Percebo sua repulsa, e eu não consigo apreender aquele altivo amor que banha o corpo de Luiz Pires com lágrimas. Por não conseguir o amor de Margarida, termino por cegar Luiz Pires, cavando seus olhos com baganas de ferro em brasa. Após dois meses à liberdade, Luiz Pires suicida-e para não mais fazer sofrer sua adorada Margarida.

(continua)

Acreis, 13/01/2013 - Belford Roxo

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