sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Escuridão da Noite - I

Sempre em minha vida acontece um episódio inesperado.
Não consigo deixar de lembrar e nem conseguir esquecer.
Desejava varrer da memória não só isso,
Mas  tudo o quanto pudesse.
Minha vida nunca completou-se...
Nem em minha morte!
Minha biografia principiava a ser conhecida nas redondezas.
Dizem que minha alma de estrangeiro é aguardada no Céu
Para que de lá seja enviada ao Inferno.
A minha urna foi fechada e posta num nicho do templo,
Até que fosse chegado o dia do meu enterro.
Eu não pertenço mais ao seu mundo.
Tudo em mim não se parece mais comigo.
Olho para mim, ainda rapaz, cheio de curiosidades,
E vejo certa semelhança com meu pai, já defunto.
Os olhos escuros. As mãos... As mãos tão grandes!
A boca sem dentes...A conformação do crânio!
Abro meus olhos e vejo Deus sentado diante de mim.
Ele me fala que tudo será julgado não pelo que fiz ou não fiz,
Mas sim pelo que eu pensava.
Na minha vida vivi isolado durante todos aqueles anos.
Isolado, não -falo de mim para mim.
Tinha as crianças que recolhia e os mendigos que alimentava...
Em nada tenho fé. Mas tenho amor por tudo que faço.
Hesito à porta oculta das trevas.
Penso que tenha algum ente espiritual, para que, animado desse propósito,
Tente sentar na cadeira mais alta dessa imensa biblioteca.
O meu prazer é agora escolher entre essas palavras uma que sirva para mim:
Árvore, flor, noite, ódio, ave, casa, ninho, amor, telefone, vida, morte, fome, vinho,
Quadro, mesa, pedra, abajur, régua, televisão, açúcar, janela -e poder pronunciá-la
Quando me sentir totalmente sozinho, à luz do dia, na imensa sala desta mansão.
Será ela a palavra consoladora da minha alma. E será escrita para ser lida
No mais longo trecho de um livro santo. Será a palavra de Deus, na significação
De tudo quanto existe.
(continua)

Acreis, 11/01/2013, Sta Cruz/RJ

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